10 muletas e chavões de texto que fazem todos os artigos de blog se parecerem

by daniduc on julho 26, 2011

Você já reparou na explosão de certas fórmulas e jeitos de dizer as coisas?

Está nas revistas, na televisão e… nos blogs.

Essas muletas de texto fazem com que todos se pareçam, uniformiza o estilo, como se uma única redação cheia de andróides tenha tomado conta da comunicação escrita em português.

E fazem isso sem acrescentar nenhuma informação útil à frase.

É fácil escrever assim: as linhas são preenchidas, as soluções estão prontas, a estrutura dá pouco trabalho pra ser construída.

Maravilha. Só tem um pequeno efeito colateral: seu texto fica vazio e sem personalidade.

Faça o seguinte exercício: veja 10 dessas muletas e, se você algum dia usou alguma em seu texto, tente reescrevê-lo sem elas. As soluções que você vai se forçar a criar podem não sair boas de primeira, mas será seu primeiro passo em um mundo maior (e em um texto melhor).

Escrever bem, como outras atividades humanas, requer muito esforço e muita prática. Comece abandonando essas rodinhas de sustentação da sua bicicleta.

O tombo pode ser dolorido, mas alguma hora é preciso aprender a pedalar de verdade.

1. Confira [algo]

Todo portal, todo jornal, toda chamada, exige que você confira algo. Eu não sou fiscal para conferir as coisas.

Mas, a sério, essa chamada está pronta e muita gente usa sem pensar. E, de tanto usarem, ficou batida, sem sentido, sem força. Busque alguma outra. É, vai requerer pensar um pouco, mas isso é bom, certo? 🙂

2. Esbanja [alguma coisa]

Se você esbanja bom humor, mau humor, saúde, você também esbanja uma muleta de texto. É outra palavra que, de tanto usarem, perdeu a força. Não existe outra forma de dizer que há abundância de algo?

3. Não poderia deixar de…

Hã… sim, poderia, muito do bem. E você, poderia deixar de escrever um texto sem essa muleta?

4. Não dá para não [fazer/falar/etc]

De novo: claro que dá! A popularidade dessa muleta vem, desconfio, da propaganda da Folha “não dá pra não ler”. Além da estrutura desnecessariamente complexa (com duas negativas), você não quer ficar soando como propaganda corporativa, né?

Quer? Céus!

5. É isso mesmo!

Campeã de popularidade em telejornais. Você faz uma afirmação (pseudo)bombástica ou impressionante, e depois confirma: é isso mesmo!

Hã, puxa, ainda bem… senão pra quê dizer em primeiro lugar?

6. Não é para menos

E para mais? É? Tente ligar duas idéias sem usar o “não é para menos”. Assim, só de farra, uma vez! Viva perigosamente!

7. “O mesmo” em lugar de pronome pessoal

Existem tantos pronomes pessoais legais por aí, perfeitamente bons… só usar!

Um monte de vezes dá pra simplesmente cortar “o mesmo” de uma frase sem causar nenhum problema.

Eu te desafio: sempre que você sentir vontade de usar “o mesmo” pra evitar uma repetição, resista! Em vez disso, repense a frase. Você vai ver que há, em todas as vezes, uma outra solução. É só usar e seu texto ficará melhor.

(Ou você preferia que eu escrevesse “use a mesma e seu texto ficará melhor”?)

8. Só pra se ter uma idéia…

Outra frase-muleta campeã de utilização em matérias de telejornal. “Só para se ter uma idéia, já são mais de duzentos milhões de textos com muletas como essa produzidos por minuto”.

Faz um teste. Corte, assim, seco, do seu texto e pergunte-se: “fez grandes faltas?”

Ou com um mínimo de alteração, se alguma, o texto passa de um ponto ao outro sem sentir falta da expressão?

9. Já imaginou (ou “já pensou…?”)

Olha, eu tenho uma imaginação bastante fértil…

Bastante.

E, quando eu vejo um texto com uma expressão que é repetida a ponto de virar um chavão, eu desconfio que se tem alguém com problema de imaginar coisas não sou eu…

10. Não é à toa que…

Irmãzinha gêmea do “não é para menos”. Mais uma formulinha pronta pra você se apoiar e poder ligar duas idéias sem precisar pensar muito. É fácil, enche linha, todo mundo usa… por que não?

Porque você não é todo mundo e você pode pensar em uma solução que seja, assim, sua.

Eu sei que pode!

Uma extra: ledo engano

Quando um engano não é apenas um engano, ele é um “ledo engano”.

Já parou pra procurar “ledo” no dicionário? Sabe o que significa “ledo engano”?

(É um engano que traz felicidade, fruto da ignorância. Tá em Camões, Lusíadas: Estavas linda Inês, posta em sossego, /  De teus anos colhendo doce fruito / Naquele engano da alma, ledo e cego, / Que a Fortuna não deixa durar muito).

Não vá me dizer que você usava uma expressão sem saber o que ela significa?

E, se sabia, porque não usar algo um pouco mais inovador? Sei lá, Camões foi muito criativo, mas tem um tempo já…

Não leve a mal

Olha, se você ficou chateado com alguma parte desse artigo, por favor, não fique.

Alguém criticar seu texto é algo que sempre dói, mas essa dor é o que faz você crescer. Eu sei dizer porque meus textos foram e são, até hoje, severamente criticados por alguns dos leitores mais exigentes que eu conheço.

Aprendizado pela dor é algo altamente eficiente, e as lições tendem a durar.

Em vez de ficar chateado, faça o exercício que eu propus. Funciona.

Eu sei por experiência própria.

Artigo dedicado aos muitos mestres e amigos que enchem (e encheram) meu coração de terror e ansiedade ao aceitar revisar meus textos. Por esse medo e as lições dele tiradas, obrigado.

rbp julho 26, 2011 às 8:51 pm

Putz, um que me incomoda muito é “O que falar sobre ?” Ou você sabe o que vai falar (daí não faz sentido a pergunta) ou não sabe (e daí não faz sentido o texto inteiro). Pior ainda é a a variante “Não tem o que falar sobre <assunto/pessoa" (e daí falar).

Ah, e outro: " A resposta é um NÃO/SIM”. Quando alguém te faz uma pergunta, você simplesmente responde. Você não fala “a resposta é…” toda vez, fala? “Que horas são?” “A resposta é 7:30!”. Então, por favor.

LiCo julho 27, 2011 às 11:22 am

Que bacana, vou já revisar meus textos. Uma “muleta” pelo menos já identifiquei que uso com frequência: É isso mesmo! E com ponto de exclamação e tudo hehehe

Rodrigo Barneche julho 27, 2011 às 11:45 am

Boa Daniel! Não dá pra negar que esse post é obrigatório pra quem não é do ramo das palavras, como eu que blogo por lazer. Não é à toa que teus textos fazem sucesso. Só pra se ter uma idéia, um texto que esbanja bom humor, só pode ser de um cara que tem o dom da escrita. Não poderia deixar de favoritar o mesmo para referências futuras. 😉

Érika Marques dezembro 1, 2011 às 10:27 pm

Daniel,

Olha eu por aqui!!! Sensacional este post!

Já constatei que estou totalmente aleijada..rsrsrs Utilizo várias muletas. É incrível! Vou revisar meus textos e prestar muita atenção nos próximos 🙂

Beijos

Érika

Thaís maio 9, 2012 às 3:19 pm

uhauahua. Uso dois desses. Mais um que eu não aguento e que tem de montão é terminar uma matéria com “Imagina se a moda pega?”. Ninguém merece.

Eliane agosto 27, 2012 às 2:35 am

Que bacana!

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